Ela aborda as substâncias terapêuticas a partir de seus
sabores, porque ao entrar em nosso organismo, por meio da boca, os
alimentos, por exemplo, são decodificados pelo nosso sistema
nervoso primeiramente pela impressão do sabor produzido, levando
a reações de produção de enzimas digestivas, hormônios e
outras substâncias, baseado nessa percepção. Os sabores revelam
um intricado e dinâmico potencial terapêutico das energias
contidas nas substâncias em termos de efetivamente intensificar,
reduzir ou equilibrar os Doshas.
São considerados seis sabores e para podermos compreender a
ação de cada um deles sobre os doshas
devemos conhecer sua
constituição de acordo com os cinco elementos (mahabhutas).
Esse conhecimento será determinante para escolhermos os alimentos
adequados, o modo de prepara-los e as combinações, tal como
vimos em nosso artigo anterior.
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RASA
- sabor
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BHUTAS
- elementos
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Doce
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terra + água
|
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Salgado
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água + fogo
|
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Ácido
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terra + fogo
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Adstringente
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terra + ar
|
|
Picante
|
ar + fogo
|
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Amargo
|
ar +éter
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Os sabores também são analisados de acordo com o Virya
que é a capacidade de conter energias que tenham,
intrinsecamente, a propriedade de aquecer ou resfriar:
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RASA
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ENERGIA
(Virya)
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Doce
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Frio – 3
|
|
Salgado
|
Quente
– 3
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Ácido
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Quente
– 2
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|
Adstringente
|
Frio – 2
|
|
Picante
|
Quente – 1
|
|
Amargo
|
Frio - 1
|
1 – Primeiro nível, ação mais forte.
2 - Segundo nível, ação moderada.
3 – Terceiro nível, ação mais suave.
Os sabores não têm esta capacidade de aquecer ou resfriar
na mesma intensidade, por isso colocamos em números para
facilitar a análise. Assim sendo, o sabor picante é o mais
aquecedor e o amargo é o mais resfriante.
Devemos associar, ainda, a análise dos sabores sob o ponto
de vista de certas qualidades ou Gunas. Elas são em número de
20, divididas em 10 pares de opostos. Desses, os de ação mais
direta relacionada com o tema que estamos estudando são dois:
Pesado/leve
e
Úmido/seco.
Essas gunas se referem às propriedades de aumentar
terra (pesado) ou ar (leve) e a de acrescentar água ou retira-la,
respectivamente.
RASA
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GUNA
Úmido/seco
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GUNA
Leve/pesado
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Doce
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Úmido
– 1
|
Pesado –1
|
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Salgado
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Úmido
– 2
|
Pesado
– 2
|
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Ácido
|
Úmido
– 3
|
Leve
– 3
|
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Adstringente
|
Seco
– 3
|
Pesado
– 3
|
|
Picante
|
Seco
– 1
|
Leve
– 2
|
|
Amargo
|
Seco
- 2
|
Leve
- 1
|
1 – Primeiro nível, ação mais forte.
2 - Segundo nível, ação moderada.
3 – Terceiro nível, ação mais suave.
Várias exceções existem. Por exemplo, o iogurte, apesar
de ácido e doce é pesado. Essas propriedades se manifestam com o
uso prolongado do alimento.
O efeito pós-digestivo (Vipak) não deve ser confundido
com o sabor secundário. Ele se refere às propriedades do
alimento após ser digerido no organismo.
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RASA
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EFEITO PÓS-DIGESTIVO
(Vipak)
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Doce
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Doce
|
|
Salgado
|
Doce
|
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Ácido
|
Ácido
|
|
Adstringente
|
Picante
|
|
Picante
|
Picante
|
|
Amargo
|
Picante
|
Assim, por exemplo, os efeitos pós-digestivos (Vipak) dos
sabores doce e salgado se enquadram nas propriedades dos alimentos
doces, enquanto o adstringente, picante e amargo possuem o Vipak
picante, em longo prazo.
Temos, ainda, outro aspecto a ser considerado em relação
aos alimentos e ervas medicinais que é o seu Prabhava ou
“propriedade especial”. Estão incluídos aqui a composição
química do alimento, o modo de prepara-lo e a “energia vital”
daquele que prepara o alimento que lhe dá algumas propriedades
especiais, que não podem ser explicadas pelo rasa, virya, vipak
ou guna. Por esse motivo, nossos alimentos devem ser preparados em
estado mental de elevação espiritual, como uma oferenda divina,
para que possam ser infundidas neles somente energias salutares.
Sri Krishna, no Bhagavad Gita, nos ensina que todo alimento não
oferecido à Divindade é tamásico, ou seja, gerador de doenças
e obscuridade.
Agora, raciocinando com as informações dadas
anteriormente: composição em termos dos cinco elementos e das
outras propriedades dos alimentos de acordo com rasa, virya,
vipak e prabhava relacionando com os doshas, podemos concluir
como os alimentos exacerbam ou reduzem vata, pitta e kapha em nós
e utilizar esse conhecimento para buscar a harmonia e a saúde.
Vata que contém as características de frio, seco e
leve é reduzido principalmente pelo sabor salgado e, em menor
intensidade, pelo ácido e pelo doce. É aumentado principalmente
pelo sabor amargo (ar e éter) e, mais suavemente, pelo
adstringente e picante. Esse último, por ter virya quente com
muita intensidade, é benéfico para reduzir Vata, apesar de
conter ar. Adstringente aumenta imediatamente Vata e amargo mais
em longo prazo. Por esse motivo, o que dizer daquelas garotas
adolescentes, com sonhos de se tornarem modelos famosas, fazendo
uma dieta de pura salada fria, crua (predomina amargo e
adstringente), sem temperos e, em horários erráticos, freqüentando
festas noturnas com muitos estímulos luminosos e sonoros!!
Tornam-se exemplos prontos dos desequilíbrios de Vata (magras sem
energia, pálidas, com grandes “olheiras” rapidamente disfarçadas
pela maquiagem, ansiosas, insones, caindo freqüentemente em
estados depressivos, etc.)
Pitta é aumentado principalmente pelo sabor ácido
e, em menor intensidade pelo picante e salgado. É mais reduzido
pelo amargo, em seguida pelo adstringente e doce. O sabor amargo
(folhas verdes, legumes, ervas digestivas) é o melhor para Pitta
por descongestionar e purificar a bile e o sangue. O sabor doce é
muito útil por ser frio e nutritivo. Exemplos comuns da exacerbação
de Pitta pelos sabores é a piora da gastrite por ingerir frutas
ácidas, das hemorróidas pela pimenta (picante) e da hipertensão
arterial pelo sal. Parece que as doutrinas de alimentação
exclusiva com base em verduras e legumes crus foram feitas por
pittas e para pittas!
Kapha (que é frio, úmido, pesado) é aumentado
principalmente pelo sabor doce e, em menor intensidade, pelo
salgado e ácido. É reduzido principalmente pelo sabor picante e,
em seguida, pelo amargo e adstringente. Dietas para redução de
peso para kapha em excesso, devem incrementar o uso de picantes e
quentes (gengibre, pimentas, mostarda, cominho) e amargos
(verduras cozidas) e reduzir o uso do sabor doce (arroz, trigo).
Vejamos, então, as propriedades terapêuticas dos diversos
sabores:
Doce:
é
construtor e aumenta a vitalidade de todos os tecidos. Harmoniza a
mente e promove o contentamento. É demulcente (suaviza as
membranas mucosas), expectorante e laxante suave.
Salgado:
é
suavizante, laxativo e sedativo. Em pequena quantidade estimula a
digestão. Em média quantidade é purgativo e, em grande
quantidade, causa vômito. Descongestiona as massas de muco
endurecidas, acalma os nervos e diminui a ansiedade.
Ácido:
estimulante,
carminativo (elimina gases), nutritivo e reduz a sede. Desperta a
mente e os sentidos, promove a circulação e fortalece o coração,
nutre os tecidos, com exceção do reprodutivo.
Picante:
estimulante,
carminantivo, diaforético (promove o suor). Estimula o
metabolismo e promove as funções orgânicas. Promove o calor e a
digestão. Estimula a circulação e trata a estagnação do
sangue. Abre a mente e os sentidos e limpa os canais energéticos,
reduzindo as dores nervosas e a tensão muscular.
Amargo:
é
alterativo (purifica o sangue), limpando e desintoxicando. Reduz
todos os tecidos e aumenta a leveza da mente. É antibiótico e
anti-séptico e também purifica a mente e as emoções. Em
pequena quantidade é estimulante da digestão. Auxilia a digerir
os açucares e gorduras.
Adstringente:
Reduz
sangramentos e outras eliminações excessivas (como suor e diarréia).
Promove a saúde da pele e membranas mucosas. Enrijece os tecidos
e trata prolapsos.
Quando ingerimos em excesso os alimentos que contêm cada
um dos sabores, produzimos um desequilíbrio físico e mental que
se reflete nos problemas de saúde expostos no quadro abaixo.
Devemos entender que a quantidade ideal de cada um dos sabores
varia de acordo com o dosha predominante na pessoa e que cada um
dos sabores tem uma potência diferente quanto à capacidade de
agravar os doshas. O sabor amargo é o que tem maior potência de
agravar os doshas, em seguida, na ordem, o salgado, o ácido, o
picante, o adstringente e o doce. Nosso cardápio diário deve
levar em consideração essa potência , montando pratos que
contenham proporções adequadas. Isso pode parecer complexo no
momento, mas no próximo número da revista Sexto Sentido
estaremos tratando da aplicação prática desses conceitos, vendo
a culinária ayurvédica.
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Sabor
(rasa)
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Efeito
físico do excesso
|
Efeito
mental do excesso
|
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Doce
|
Doenças
por excesso de gordura: obesidade, diabetes, indigestão,
tumores
|
Kapha:
letargia
Vata:
ansiedade
|
|
Ácido
|
Flacidez,
fraqueza, febre, sede, palidez, anemia pitta, herpes
|
Vertigem,
raiva, impaciência, temperamento “quente”
|
|
Salgado
|
Hipertensão,
calvície, cabelos brancos, doenças de pele, rugas, herpes,
perda de força, abscessos
|
Raiva,
impaciência, letargia
|
|
Picante
|
Sede,
depleção dos líquidos reprodutivos e da força, desmaios,
tremores, dores lombares
|
Raiva,
impaciência
|
|
Amargo
|
Depleção
dos tecidos, doenças Vata
|
Ansiedade,
medo, insônia
|
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Adstringente
|
Alimentos
mal digeridos, dor no peito, sede, emagrecimento, redução
da libido, constipação intestinal, bloqueio dos canais
|
Ansiedade,
preocupação, medo, insônia
|
Devemos reconhecer que a abordagem ayurvédica
desses temas pode parecer muito estranha para alguns médicos,
profissionais de saúde e a população em geral, mas há
profundos fundamentos que respaldam todo esse raciocínio e ele
devolve, de maneira maravilhosa, a responsabilidade da manutenção
da saúde àquele que realmente tem a obrigação e o dever de
mante-la, que é o próprio indivíduo. As mudanças alimentares
desempenham papel fundamental nisso. Obviamente, essas mudanças
devem ser feitas de forma gradual, para que sejam consistentes e
possam não provocar maior stress do que o próprio problema de saúde
na pessoa. Nossos cursos de ayurveda têm sido muito gratos a nós
professores e alunos por serem grandes motivadores de uma
compreensão mais ampla da saúde, como recupera-la e como
mante-la. Em abril estaremos começando uma nova turma de formação
de terapeutas ayurvédicos em São Paulo.
Até o próximo número com a culinária ayurvédica.
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