Divodasa
Dhanwantari desenvolveu a escola de cirurgia da Ayurveda,
provavelmente entre os séculos nove e seis antes de Cristo,
surgindo um dos textos fundamentais da Ayurveda denominado Sushrut
Samhita.
O Sábio
Kashyapa desenvolveu as escolas de pediatria e ginecologia e o Sábio
Bharadwaj, considerado o pai humano da Ayurveda, teve como
discípulo Atreya que desenvolveu a escola de clínica médica e
escreveu, provavelmente no primeiro século depois de Cristo, o Charak
Samhita, outro texto fundamental da Ayurveda. Estes dois
grandes tratados foram seguidos do Ashtanga Hridayam,
uma versão concisa dos anteriores, escrito no século oito depois
de Cristo. Conseqüentemente a Medicina Ayurvédica é o sistema médico
mais antigo do mundo. Este sistema foi absorvido pelos chineses,
tibetanos, gregos, romanos, egípcios, persas e outros que
viajavam para terem contato com a sabedoria e retornarem às suas
terras de origem. O Caminho da Seda das Índias estabeleceu a rota
entre a Ásia, o Meio Oriente e a Europa, provendo a ligação
entre as culturas.
Nas Escolas da Índia antiga os estudantes eram treinados
em oito “especialidades” da Ayurveda:
-
Medicina Interna
-
Ouvidos, nariz e
boca.
-
Toxicologia
-
Pediatria
-
Cirurgia
-
Psiquiatria
-
Afrodisíacos
-
Longevidade
Nas
minhas pesquisas, que já levam mais de vinte e cinco anos,
compatibilizando os sistemas tradicionais e chamados
“alternativos” com a medicina alopática convencional, não
encontrei nenhum sistema mais completo e mais holístico
(integral) que a medicina ayurvédica. Ela enfatiza
terapias preventivas e curativas, por vários métodos de eliminação
de toxinas do corpo e da mente, levando a um melhor funcionamento
celular que consubstancia o tão propalado conceito de longevidade
e “rejuvenescimento” deste sistema médico. Ayurveda é mais
que um mero sistema de saúde. Ela é uma ciência e uma arte do
apropriado viver, que ajuda a obter longevidade. Ela pode guiar
todo indivíduo na escolha apropriada da dieta, hábitos de vida e
exercícios que restauram o equilíbrio do corpo, da mente e da
consciência, prevenindo doenças e tratando enfermidades já
instauradas.
De acordo com a Ayurveda, todo ser humano é um fenômeno
único da consciência cósmica, manifestado através dos cinco
elementos básicos da natureza (terra, água, fogo, ar e akasha).
Obviamente, os nomes terra, água... não se referem aos elementos
tais como os conhecemos atualmente, mas a estados da matéria. A física
quântica, nas suas teorias e pesquisas de ponta, descreve o
universo como uma possibilidade dentro da consciência,
corroborando a percepção dos antigos Sábios.
A
combinação destes cinco elementos forma três organizações do
corpo ou tipologias, que são:
·
Vata - éter mais ar – leveza,
estrutura esguia, rapidez nas atividades, fome e digestão
irregulares, sono leve e interrompido, entusiasmo, vivacidade,
imaginação; excitabilidade, mudança de humor, tendência à
preocupação, energia física e mental em explosões repentinas.
·
Pitta - fogo mais água – constituição
mediana, temperamento empreendedor, gosto por desafios; inteligência
aguçada, muita fome, sede e boa digestão; tendência à raiva e
irritabilidade sob tensão; aversão ao sol e ao calor; caloroso e
ardente nas emoções, quando equilibrado.
·
Kapha - água mais terra – constituição
forte e sólida; energia constante, gestos vagarosos e graciosos;
personalidade calma e tranqüila; tendência à obesidade; afeição,
tolerância e generosidade; tendência à possessividade e complacência;
buscar consolo emocional nos alimentos.
Todo
temperamento psicossomático ou constituição é determinado por
estes três doshas no momento da fecundação. Quando o embrião
é formado, sua constituição está determinada, tal como o código
genético e determina essas características até a morte física.
Existem sete constituições básicas de acordo com a Ayurveda:
Este
código energético original tem, em cada ser humano, seu próprio e
único equilíbrio de V-P-K de acordo com sua própria natureza.
Este equilíbrio V-P-K é a ordem natural. Então, quando este equilíbrio
dos doshas está perturbado, origina-se o desequilíbrio, que é
desarmonia. Saúde é harmonia; doença é desarmonia. No
corpo há uma constante interação entre harmonia e desarmonia. Se
entendermos a natureza e estrutura da desarmonia, poderemos
restabelecer a harmonia. A Medicina ayurvédica acredita que esta
harmonia repousa dentro da desarmonia.
Para que se estabeleça e se mantenha esta ordem (harmonia),
que é o estado de saúde, na concepção ayurvédica, é preciso
que:
-
AGNI, o metabolismo,
representado pela capacidade de digestão (transformação dos
alimentos em energia) esteja em condição balanceada;
-
As energias básicas
do corpo (Vata, Pitta e Kapha) estejam em equilíbrio;
-
Os três elementos de
excreção (urina, fezes e suor) sejam produzidos e eliminados
normalmente,
-
Os sete tecidos do
corpo – rasa (plasma), rakta (glóbulos sanguíneos), mamsa (músculos),
meda (tecido gorduroso), asthi (tecidos ósseo e nervoso), majja
(medula óssea) e sukra (tecidos reprodutores) estejam
funcionando normalmente;
-
A mente, os sentidos
e a consciência estejam trabalhando em conjunto e de maneira
harmoniosa.
Quando
o equilíbrio destes sistemas é perturbado, a doença (desarmonia)
inicia seu processo.
O ambiente interno é governado por V-P-K que estão em
constante interação com o ambiente externo. Uma dieta inadequada,
hábitos, estilo de vida, combinação de alimentos incompatíveis,
mudanças de estação, emoções reprimidas e fatores de stress
podem agir em conjunto ou separadamente para mudarem o equilíbrio
de V-P-K. Isto leva, entre outras coisas, a um processo digestivo
inadequado. As bactérias intestinais, responsáveis pela fermentação
e putrefação destes restos de alimentos mal digeridos, transformam
este conteúdo em toxinas como o indol, o escatol, a cadaverina e a
putrescina (algumas substâncias já identificadas como altamente tóxicas).
Os próprios alimentos que ingerimos em nossa “dieta moderna” já
estão repletos de toxinas. Esta toxicidade acumulada, uma vez bem
estabelecida, irá vagarosamente afetando prana (energia
vital), ojas (imunidade) e tejas (energia do
metabolismo celular) resultando em doença.
O médico com formação ayurvédica deve ter profundo
conhecimento da filosofia védica e de sua extensa psicologia, das técnicas
do yoga e meditação, das ervas medicinais e dos processos de
desintoxicação física e psíquica.
O atendimento começa por uma completa consulta médica que
inclui a semiologia e propedêutica médica ocidental e a definição
do dosha (código energético original) e os desequilíbrios
existentes, através de um cuidadoso exame que inclui um grande número
de características físicas e psíquicas. Em seguida, inteiramente
baseado nesta definição, é instituído o tratamento que inclui:
-
Meditação: o
ponto culminante do tratamento. É o solo fértil onde se enraízam
todas as outras formas terapêuticas. Sem a meditação não se
completa o verdadeiro potencial curador da medicina ayurvédica.
Uma técnica específica é fornecida a cada cliente para ser
praticada diariamente.
-
Dieta: Há um
complexo conhecimento do efeito dos diversos alimentos sobre
estas energias originais levando ao equilíbrio ou à
desarmonia. Os alimentos mais apropriados, a forma de
prepara-los, o uso de temperos adequados, as associações
corretas, jejuns periódicos são alguns dos elementos da dieta.
Assim, por exemplo, Vata deve dar preferência a alimentos
cozidos, quentes e energéticos e a refeições freqüentes;
Pitta alimentos frios, crus e coloridos e evitar excesso de
condimentos; Kapha evitar alimentos gordurosos e com muitos líquidos
e utilizar condimentos que estimulam a digestão e o
metabolismo, como o gengibre.
-
Ervas medicinais:
cultivadas em lugares especiais, colhidas e processadas de
maneira a conservar não só suas propriedades bioquímicas,
como também energéticas e espirituais, têm um relevante papel
no tratamento medicamentoso da ayurveda.
-
Rotina diária:
as 24 horas do dia são divididas em ciclos que sofrem a influência
predominante de um dos três doshas (V-P-K). Com este
conhecimento procura-se adaptar a rotina diária de horários de
atividades, alimentação, repouso, meditação e sono nos períodos
que sejam mais benéficos e que possam promover a saúde. Assim,
por exemplo, levantar bem cedo, meditar ao nascer do sol, fazer
do almoço a principal refeição do dia, não comer à noite e
não dormir muito tarde encontram respaldo lógico nos ciclos diários.
-
Panchakarma: são
processos de desintoxicação profunda. Incluem técnicas
preparatórias e principais. Entre as primeiras estão:
-
Shirodhara: fluxo
contínuo de óleo morno, acompanhado de medicamentos, no
centro da testa, produzindo profundo relaxamento.
-
Abhyanga: massagens
feitas com óleos associados com ervas medicinais, com estímulos
de pontos energéticos chamados marmas.
-
Svedhana: banho de
vapor aquecido medicado.
-
Garshana: estímulo
da pele realizado com uma luva de seda e pós medicinais.
Entre
as técnicas principais:
·
Vamana: limpeza gástrica
·
Virechana: uso de laxantes com medicamentos ayurvédicos.
·
Basti: enemas feitos com ervas medicinais.
·
Nasya: limpeza nasal
·
Rakta moksha:
-
Yoga: exercícios
psicofísicos associados a técnicas respiratórias, devidamente
preparados e adaptados a cada pessoa.
Se
você deseja utilizar estes conhecimentos básicos da ayurveda de
maneira preventiva em sua vida, inicie lendo dois bons livros em
português: A Ciência da Auto Cura de Vasant Lad e Saúde
Perfeita de Deepak Chopra. Procure se aproximar do diagnóstico
adequado de seu dosha e dos desequilíbrios existentes fazendo uma
auto-análise à luz dos conhecimentos desses livros. Em seguida,
adapte sua alimentação, progressivamente, à tipologia que
você considera mais próxima da sua. Busque utilizar os temperos
adequados em sua alimentação. Faça Yoga de acordo com suas
características. Medite diariamente. Para isso, procure a orientação
de um professor com experiência e formado de acordo com os métodos
tradicionais do Yoga. Inclua a dimensão espiritual em sua vida, ou
seja, busque o aspecto devocional por aquele aspecto do Supremo que
mais lhe toque o coração. Cante Mantras quando acordar
(agradecendo a oportunidade de um novo dia de experiências), ao
tomar banho, em sua prática diária, antes de alimentar-se, antes
de dormir. “Sacralize” sua vida e os elementos que a compõem e
você verá que precisará muito menos de antiinflamatórios, antibióticos,
analgésicos, calmantes, antidepressivos, etc., poderá alcançar
longevidade, força física e uma sensação de bem estar que se
expandirá para aqueles que o cercam. A felicidade é fruto da paz
interna e aquele que está feliz é, naturalmente, bondoso. Assim,
vive o Dharma doce como o néctar (susukham kartum) tal como ensina
Sri Krishna, afastando-se do conceito de que só a dor purifica e
eleva o homem(!).
Este
breve e incompleto resumo da medicina ayurvédica não pode terminar
sem dizermos que ela, mais que todos os outros sistemas médicos,
traz de volta o sagrado direito e dever da auto-responsabilidade
sobre nossa própria saúde e bem estar, porque enfatiza aquilo que
todos sabem, mas poucos praticam e, pior ainda, poucos médicos dão
a necessária ênfase na prática diária com seus clientes, de que
a saúde se promove com alimentação adequada, exercícios físicos
e estado mental positivo. |